O resultado da eleição importa menos do que parece

À primeira vista, o assunto é um só. Até os boletins internacionais que acompanhamos, como os da Bull Theory, comentaram o efeito da renovação sobre o mercado brasileiro. Houve otimismo. E otimismo, convenhamos, é insumo escasso. Não cabe a ninguém chegar para apagar a festa.
Entretanto, o que a criptografia na palma da mão entrega não é um candidato melhor. É um limite. Quem chega ao poder costuma chegar também com a capacidade de silenciar. Silenciar as finanças, no caso. A rede não impede o eleito de governar. Impede, isso sim, que a posse do cargo baste para colocar a mão no que está protegido por chave privada. Não é um limite institucional. É um limite técnico.
O dinheiro não corrige o hábito
Economia, se formos honestos, é atitude de longo prazo. Ninguém constrói valor de verdade entre uma apuração e outra. E há um dado incômodo, já conhecido de quem observa fortuna súbita: dinheiro muito grande, muito rápido, costuma fazer mais mal do que bem. A pessoa chega com os hábitos de antes. São os hábitos, não o saldo, que mudam a vida econômica. Quem já tem recurso pagaria, se pudesse, para corrigir traços de personalidade que não lhe agradam. Riqueza não apaga falha.
O jiu-jitsu deixa isso concreto. Não se vira faixa-preta porque se pagou mais. Dá para comprar aula particular e investir mais horas. Ainda assim, dieta, sono e foco não têm preço de prateleira. Recurso melhora o suporte. Não resolve o principal.
Governo A ou governo B
No Brasil é comum amarrar o próprio estado econômico ao governo da vez. A ilusão é quase total. Folga, e a tal busca por uma vida melhor, dependem mais de postura, vitalidade, imaginação e ofício. Trabalho manual, idioma, ferramenta, paciência para ficar horas num projeto: isso se soma. O ambiente político entra quando corta a imaginação. Num lugar em que só existem vinte cortes de cabelo e um cardápio curto de profissões, talento vira quase enfeite. Querer esculpir gelo no sertão nordestino esbarra no terreno, não na vontade. Dá para converter a visão em outra coisa. Não dá para ignorar o chão.
Daí a parte prática, a mesma de quando se fala em trabalho remoto e em receber em cripto. Um segundo idioma. Se possível, um segundo passaporte. E patrimônio que se move sem pedir licença a um banco correspondente. The Sovereign Individual, ainda nos anos 1990, já descrevia essa manobra: quem carrega ofício e valor deixa de estar tão exposto às crises políticas da América do Sul.
A ferramenta, aliás, não escolhe lado. Se você confia no candidato A e trata o B como vilão, ou o inverso, a proteção é a mesma. Não ficar à mercê. Não é questão partidária. É a possibilidade de divergir sem que a divergência vire risco de vida.